A magia de gerar uma vida

Há sempre uma esperança

Na verdade, nem sei por onde começar.
Não escrevia por aqui há algum tempo e passou-se tanta, mas tanta coisa.
Mas vá, não é suposto este texto ser um resumo dos meses que estão para trás.
Com este texto, quero contar-te um pouco do que foi o nosso caminho para voltar a ter um bebé.

Em setembro de 2021, pouco antes do meu aniversário, passámos por um terceiro aborto. Falei-te disso aqui.
O que não te tinha dito é que em dezembro desse mesmo ano voltámos a engravidar e que no início de janeiro… voltámos a perder mais um bebé.
Todas as perdas envolvem dor. A dor emocional, essa, está sempre lá.
Mas desta última vez, a dor física foi enorme.
Pelas contas, estava de 9 semanas e… quando fui à segunda consulta o embrião estava já sem batimentos.
Aborto retido.
Tive de fazer uns comprimidos para expulsar e… bom, vou poupar-te ao que se seguiu.

Estou a contar-te isto para te dar um contexto.
Porque depois destas 4 perdas, eu e o Martim enfrentámos todo um processo de testes, exames e consultas.
Testes genéticos… os 2.
Como não foi detetada nenhuma alteração, a minha médica encaminhou-nos para um médico investigador que foi só assim uma luz na nossa vida.
Fiz uma série de análises e ecografias e o Martim um espermograma.
Voltámos à consulta com ele em julho.

Do meu lado nada.
Mas no espermograma do Martim foi encontrada uma anomalia.
A questão podia estar aqui. E estava mesmo.
Por indicação médica, começou a fazer um suplemento para aumentar a qualidade do esperma e mudou alguns hábitos diários.
Conseguiu também, com a ajuda do psicólogo que o acompanha, atenuar a carga de stress que trazia com ele.
O stress… aquele que muitos acham que não têm e que não interfere com nada na nossa vida.
Pois tem (e teve) um impacto absolutamente incrível, acredita.

Saímos da consulta com algo mais concreto e, sobretudo, com a esperança de que íamos conseguir voltar a ser pais!
Escusado será dizer que já nos tinha passado pela cabeça que podia não voltar a acontecer… pelo menos de forma espontânea.
Até andámos a ler sobre a hipótese de fazer um tratamento de fertilidade.

“Daqui a 2 meses voltem a tentar. Vocês vão voltar a ser pais.”

E foi o que fizemos.
Voltámos a tentar e em outubro tínhamos na mão o nosso tão aguardado positivo.

Fui a medo. Fomos a medo, claro.
Nem seria de esperar outra coisa.
Será que desta vez ia correr bem? Até quando ia durar aquele estado de felicidade incrível que se segue a um teste de gravidez positivo?
Desta vez, tínhamos algumas orientações a cumprir: desde logo, o investigador que nos seguiu pediu para o avisarmos assim que tivéssemos o primeiro positivo.
Enviei-lhe sms nesse mesmo dia.
O próximo passo era fazer uma análise à BhCG uma semana depois. E outra 48 horas depois.
Para percebermos se os valores estavam a subir, ou seja, se a gravidez estava a evoluir.
E estava!
Iniciei também entretanto uma dose mais alta de progesterona.

Comecei a enjoar o café, tal como aconteceu na gravidez da Nonô — logo eu, viciadíssima em café.
Mais um sinal incrível que o meu corpo me estava a dar.
Nas verdade, “forcei-me” a beber café durante umas semanas, pois a privação estava a ser difícil.
Mas acabei por me render às evidências, pois só com o cheiro ficava enjoada.

A barriguinha começava a notar-se.
Por esta altura, já o Pedro — o meu PT — sabia da gravidez, claro.
Aliás, o Pedro foi a segunda pessoa a saber, por motivos óbvios.
É preciso adaptar de imediato os treinos e ter outros cuidados.
E sentir esse acompanhamento desde cedo é fundamental.

Treinar faz parte do meu dia-a-dia, por isso era impensável parar, a menos que houvesse recomendação médica, coisa que não havia.
Portanto, vida normal.
Foi uma ansiedade enorme até à primeira consulta, dia 15 de novembro.
Até ouvirmos aquele coraçãozinho lindo e confirmarmos que estava tudo bem… não descansámos.

“Está tudo bem. Muitas Felicidades” — ouvimos nesse dia.

E nesse mesmo dia contámos à Nonô, que mais uma vez já andava desconfiada.
Notámos que também ela, depois das perdas, ficou mais cautelosa.
Feliz, mas cautelosa.
Não lhe pedimos para guardar segredo — porque pedir isso a uma criança é extremamente injusto, sobretudo quando se trata de uma notícia tão boa — mas a verdade é que ela acabou por não contar a quase ninguém.

Agora sim, podíamos respirar um bocadinho de alívio em casa.
Não gosto de esconder nada da Nonô… e muito menos uma notícia tão importante, mas decidimos que desta vez, pelo menos até à primeira consulta, ia ficar só para nós os dois.

Sabíamos que ainda havia ali um caminho a percorrer e que a “fase crítica” ainda não tinha passado, mas algo nos aqueceu os corações.

Voltámos para nova consulta duas semanas depois.
Continuava tudo bem. Tudo no sítio. Coração a bater. Barriguinha a crescer.
Tudo certo!

Agora tínhamos análises para fazer e também a ecografia do 1º trimestre.
Tudo marcado, incluindo uma nova consulta para depois do Natal.
Nós já gostamos muito do Natal, mas o deste ano foi ainda mais mágico!

O dia da ecografia vai ficar guardado na nossa memória.
Dia 20/12.
A médica que nos recebeu sabia do historial e teve um cuidado imenso a gerir tudo — as nossas emoções estavam ligeiramente baralhadas, como no livro do Monstro das Cores que tantas vezes lemos cá em casa.
Não só íamos confirmar a evolução da gravidez, como íamos perceber outras coisas importantíssimas nesta fase (despiste de trissomias e outros problemas).

“Temos aqui um lindo bebé… e que não pára quieto”, disse a médica, enquanto tentava fazer o exame.
Rimos e chorámos com os nervos.

“Querem saber o sexo? É que eu já vi… se não quiserem saber, por favor digam-me.”

Queremos pois! Então não queremos? Queremos saber tudo.
Nesse momento, o Martim desatou a chorar… de felicidade, calma!
Despiu o casaco… que já estava cheio de calores e não sabia o que fazer.

“É um lindo menino, papás! Parabéns!”

Caraças!!!! É um menino!
Eu tinha um feeling que era menino — nem te consigo explicar porquê —, mas o Martim estava convencido que ia sair outra menina.
Quase caiu da cadeira e tal não foi que a médica perguntou-lhe se estava tudo bem… só para se certificar que não tinha ali um mini enfarte.
Saímos da ecografia e foi como se andássemos nas nuvens de repente!
Uma sensação impossível de descrever por palavras.

Pensámos logo na forma como íamos dar a notícia à Nonô e decidimos escrever um postal, como se fosse o mano a falar com ela, e colar uma fotografia da eco.
ADOROU! Os olhos dela brilhavam! Também ela começava a acreditar que ia tudo correr bem.
Nos dias seguintes quis levar o postal para a escola, claro!

E como ela andava muito preocupada com a mamã — a professora também falou connosco sobre o assunto para ver se conseguíamos, em conjunto, ajudar a pequenina — decidimos que ela iria connosco à próxima consulta, antes do fim do ano.
Permite-me só dizer que a estratégia passou também por marcar uma consulta com uma amiga nossa psicóloga, a Filipa, para nos ajudar a gerir da melhor forma a preocupação da pequenina.

Foi o melhor que fizemos para sossegar o seu coraçãozinho.
Não só adorou conhecer um bocadinho mais de perto o mano, como ainda ajudou a minha médica a fazer a ecografia.

Depois de um 1º trimestre cheio de sono, enjoos, muuuuuita fome e cansaço e uma anemia que tem de ser controlada, começámos a fazer mais caminhadas sempre que possível.
E, claro, associar isto a uma ainda melhor alimentação.
Posso dizer-te que a fome e o sono se mantêm… espero que vão diminuindo nas próximas semanas.
Quando dizem que não há duas gravidezes iguais, é mesmo verdade!

Há dias em que sinto um descontrolo emocional enorme, em que me apetece chorar só porque tenho fome, por exemplo.
Ai hormonas, hormonas!!

De resto, sinto-me bem e agora já só quero que chegue o fim do mês para voltar a ir à minha médica.
Como dizia o Martim no outro dia, estamos a viver numa bolha de felicidade absolutamente extraordinária… e, caraças, que FELICIDADE!
Que mágico é isto de poder gerar uma vida… outra vez!

Todos os dias agradeço.

6 Comments

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.